Saquarema e o coração que não dormia.

Era o ano de 1995, um ano depois de ter perdido meu avô por parte de mãe, estávamos no Verão e prefiro puxar pela memória e acreditar que estávamos em Janeiro. Era uma criança normal e ansiosa como outra criança que tem vizinho hiperativos. Lembro que a Jane de tarde anunciou que iríamos no dia seguinte para Saquarema, sairíamos às 05 da manhã (viajar enquanto esperávamos amanhecer!!!!!1111). O “sairíamos” continha: eu, minha mãe (a motorista por que até então Jane não queria aprender a dirigir), Jane, a Alessandra e as crianças começando pelo menor, Rennan, Raphael, Daniel e Luciana dentro de um carro grande mas não tão grande para essa quantidade de gente. Meu coração nessa época não ligava para aperto, contanto que chegássemos à praia, a minha primeira viagem pra longe, para o mar longe de Copacabana.

Pensa se eu dormi. Não, eu não dormi e aquilo não tirou a minha energia, pelo contrário. Meu coração passou à noite toda ansioso para viver essa aventura de pegar a estrada – as poucas vezes que peguei a estrada foi quando papai levava a mim e a mamãe para Teresópolis, e então aprendi a guardar dentro de mim uma ansiedade que hoje chamo de “estrada e montanhas” que costuma deixar o coração feliz enquanto o mundo fica para trás.

As crianças da casa ao lado a 202 dormiram de biquíni e sunga. A idade máxima era 11 e já estávamos acostumados a aprontar das nossas quando o assunto era água. Enchíamos o terraço de água fechando o ralo, no fim havia um desnível de chão que formava um bolsão d’água. Dávamos impulso na parede e no meio do terraço nos jogávamos com tudo batendo a barriga no chão ao encontro da mini piscina no fim. Imagina Saquarema!

Não posso contar como foi a viagem pois de verdade não me recordo, mas posso contar da praia mais brava depois da Barra da Tijuca, a da Igrejinha batia com sua ondas imensas que se chocavam com a pedra da igreja. Meu biquíni era verde água e mamãe nunca me impediu de entrar no mar, e desta vez não seria diferente. A diferença é que as crianças sabiam nadar e eu não, acho que nesse dia finalmente enfrentei a dor no coração ao ser submergida por uma onda e descobrir que sobrevivi! E como toda criança, depois da primeira onda vieram umas 100, e lembro da Luciana me ensinando a nadar cachorrinho. Me lembro que veio uma onda tão forte que me jogou lá na areia, não contei como algo ruim, a onda me deu a ideia de entrar no mar, dar as costas e esperar a próxima onda. Assim que a onda viesse me jogaria deixando que ela me levasse de novo para a beira da praia. Foram sucessivas vezes, e como toda criança, sim eu batia nos pés dos adolescentes que estavam na beira esperando para entrar no mar com suas pranchas.

Almoçar? Não lembro. Me hidratar? Não lembro! Adorava ficar queimada de praia nessa época da vida, Jane, minha vizinha, fazia umas misturas estranhas dentro do vidro de detergente, eu nunca usei, só usava o bronzeador dela. Não sabia o que era filtro solar, mas Caladril era muito conhecido! Só de pensar já sinto a pele esturricada e dolorida, os ombros em especial. Era o maior barato ficar com blush natural hahah.

Provavelmente voltamos dormindo, saímos de Saquarema umas 5 da tarde, a melhor hora para pegar a estrada. Aquele entardecer, o cheiro dos ipês que ficam para trás, o vento no cabelo todo embaraçado de sal e sol. O coração tinha certeza de que tinha valido à pena toda aquela aventura, afinal era a primeira vez longe do litoral carioca, afinal eu havia aprendido a nadar em um mar bravo e hoje depois de uns 25 anos manter viva e fresca a memória desse dia.

Esse texto é em homenagem à criança que eu fui, pelo dia das crianças amanhã e pela criança que ainda mora no meu coração. <3

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